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Mais sobre o discurso | Queimadas, auxílio, óleo no NE: UOL confere o que Bolsonaro disse


Em seu discurso na Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) exibido hoje, o presidente Jair Bolsonaro fez declarações com fatos inverdadeiros e imprecisos.

Bolsonaro inflou o valor do auxílio emergencial, afirmou que índios e caboclos são responsáveis por incêndios na Amazônia e disse que as queimadas no Pantanal acontecem em decorrência das altas temperaturas na região.

O UOL Confere avalia algumas das declarações do presidente. Em itálico, as declarações de Bolsonaro. Em seguida, as análises das falas:

Combate à pandemia do novo coronavírus

Por decisão judicial, todas as medidas de isolamento e restrições de liberdade foram delegadas a cada um dos 27 governadores das unidades da Federação. Ao Presidente, coube o envio de recursos e meios a todo o país.”
Impreciso

Logo no início do discurso, ao falar sobre as ações de combate à pandemia do novo coronavírus, Bolsonaro fez referência a uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que deu autonomia para governadores e prefeitos decidirem sobre medidas locais e quais atividades essenciais poderiam operar, barrando o governo federal de interferir em ações das administrações regionais.

A decisão do STF manteve a capacidade do governo federal de indicar medidas de isolamento, como a respeito do fechamento de fronteiras. Estados, por exemplo, não podem fechar rodovias. Para o STF, cabe ao governo coordenar as diretrizes de isolamento a serem seguidas em todo o país.

Esta decisão do Supremo saiu em abril, no momento em que a pandemia começava a se acelerar no Brasil e Bolsonaro desejava editar um decreto para reabrir todo o comércio.

Auxílio emergencial de mil dólares

Nosso governo, de forma arrojada, implementou várias medidas econômicas que evitaram o mal maior. Concedeu auxílio emergencial em parcelas que somam aproximadamente 1.000 dólares para 65 milhões de pessoas, o maior programa de assistência aos mais pobres no Brasil e talvez um dos maiores do mundo.”
Falso

Ainda em relação às medidas tomadas durante a pandemia, Bolsonaro diz que o governo concedeu cerca de 1.000 dólares como auxílio emergencial para 65 milhões de pessoas. O valor, porém, está incorreto.

Pela cotação atual, de R$ 5,42 para cada dólar, Bolsonaro diz que o governo destinou cerca de R$ 5.400 para cada brasileiro atendido pelo governo.

Na verdade, o auxílio, no máximo, vai pagar R$ 4.200. São cinco parcelas de R$ 600 e mais quatro de R$ 300. Na moeda americana, seriam cerca de US$ 775.

E nem todos os 65 milhões de beneficiários vão receber R$ 4.200, já que as quatro parcelas de R$ 300. Ao prorrogar o benefício, o governo endureceu regras, alterou critérios e reduziu o número de parcelas em alguns casos, o que reduz o número de beneficiários.

Não faltaram, nos hospitais, os meios para atender aos pacientes de covid.”
Falso

Em abril e maio, alguns estados tiveram colapso no sistema de saúde, como Amazonas, Pernambuco, Ceará e Maranhão.

Especialistas chegaram a reclamar da falta de coordenação do governo federal para distribuir pacientes para estados com maior quantidade de leitos vagos durante a pandemia.

No fim de maio, o painel de leitos do Ministério da Saúde apontava que o Brasil tinha 34 mil leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) para tratamento de covid-19. Entretanto, havia diferenças regionais gritantes no uso desses leitos: enquanto capitais já tinham passado de 90% de ocupação desses leitos, outras não chegavam perto dos 50%.

Queimadas na Amazônia e no Pantanal

Nossa floresta [amazônica] é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior. Os incêndios acontecem praticamente, nos mesmos lugares, no entorno leste da floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas.”
Falso

Bolsonaro também falou sobre os incêndios na Amazônia e no Pantanal. Ao contrário do que disse o presidente, não há provas de que os incêndios na Amazônia tenham acontecido por iniciativa de caboclos e indígenas. A declaração do presidente é falsa.

Uma investigação da Polícia Federal sobre o “Dia do Fogo”, quando os focos de incêndio triplicaram no estado do Pará, em 2019, considerou inicialmente a hipótese de que os principais suspeitos pela organização desses atos são fazendeiros, madeireiros e empresários.

Segundo as investigações, o episódio foi organizado em um grupo de WhatsApp e contou com uma “vaquinha” para comprar combustível e contratar motoqueiros para espalhar as chamas, conforme mostrou a Repórter Brasil. Mesmo assim, um ano após o ocorrido, ninguém foi preso ou indiciado.

Em setembro deste ano, pesquisadores do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e da Universidade de Estocolmo publicaram uma carta na revista Science em que afirmam que boa parte das queimadas e do desmatamento na Amazônia, entre 2019 e 2020, está relacionada a “apropriação e desmatamento em larga escala” realizadas por médios e grandes fazendeiros.

Os focos criminosos são combatidos com rigor e determinação. Mantenho minha política de tolerância zero com o crime ambiental. Juntamente com o Congresso Nacional, buscamos a regularização fundiária, visando identificar os autores desses crimes.”
Falso

Ao contrário do que disse o presidente, em seu governo houve desmonte da política ambiental e de órgãos que tradicionalmente atuam na fiscalização de crimes ambientais, como o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).

Apesar do aumento no desmatamento no país, as sanções impostas pelo Ibama caíram 60% em um ano.

Além disso, segundo o MPF (Ministério Público Federal), o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, interferiu nas estruturas de fiscalização do Ibama após Bolsonaro pressionar sua equipe devido à destruição de maquinário usado por grileiros na Amazônia.

O nosso Pantanal, com área maior que muitos países europeus, assim como a Califórnia, sofre dos mesmos problemas. As grandes queimadas são consequências inevitáveis da alta temperatura local, somada ao acúmulo de massa orgânica em decomposição.”
Falso

Sobre o Pantanal, a Polícia Federal suspeita de ação criminosa nos incêndios que devastam a região. A corporação deflagrou uma operação para apurar a responsabilidade pelas queimadas na região.

Na reserva particular do Patrimônio Natural Sesc Pantanal, na região de Barão do Melgaço, no Mato Grosso, peritos apontaram que o incêndio aconteceu por queima intencional de vegetação desmatada para criação de área de pasto para gado.

Manchas de óleo no litoral do Nordeste

Em 2019, o Brasil foi vítima de um criminoso derramamento de óleo venezuelano, vendido sem controle, acarretando severos danos ao meio ambiente e sérios prejuízos nas atividades de pesca e turismo.”
Imprecisa

Outro assunto citado por Bolsonaro foi o derramamento de óleo que resultou no aparecimento de manchas no litoral de nove estados do Nordeste e dois do Sudeste, no ano passado.

Em agosto, a Marinha brasileira encaminhou um relatório à Polícia Federal sem apontar os responsáveis pelo vazamento e sem confirmar que a ação foi criminosa. As investigações continuam.

Desde o episódio, autoridades brasileiras vinham afirmando que o óleo seria de origem venezuelana. Em fevereiro deste ano, no entanto, 25 cientistas de instituições de países como Brasil, Espanha e Itália publicaram um artigo na revista Marine Policy em que questionam afirmações de que a origem do óleo seria venezuelana.

De acordo com o texto “Derramamento de óleo no Atlântico Sul (Brasil): desastre ambiental e governamental”, faltou transparência ao governo brasileiro com a comunidade científica para mostrar a forma como a hipótese foi confirmada. Por conta disso, eles dizem que não podem descartar qualquer possibilidade da origem de óleo.

Fonte: UOL